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Os três motivos por trás da queda da bolsa de valores após o segundo turno das eleições de 2026.

Foto do escritor: Enrico Pallone
Enrico Pallone
há 10 horas
8 min de leitura

Como era de se esperar, o mercado financeiro teve uma reação de insatisfação frente ao resultado das eleições no último dia 25/10. Como resultado, a Ibovespa, que é o principal indicador de desempenho das ações negociadas na bolsa de valores brasileira, chegou a registrar queda no preço médio das ações negociadas de mais de 17%, tendo fechado com retração de cerca de 13,88% (176.608 pontos, contra 205.461 em 24/10/2026). Trata-se de um movimento já antecipado e até mesmo esperado, em casos de eleição de governantes que o mercado considera prejudicial aos seus interesses. Contudo, vale a pena dissecar um pouco mais essa discussão, para tentar entender melhor de onde, exatamente, vem esses movimentos de retração tão bruscos. Para tanto, serão apresentados três motivos que podem servir de explicação para o brusco movimento do dia 26/10.


Antes de tudo, vale analisar mais a fundo como foi o movimento do mercado financeiro entre o primeiro e o segundo turno. Isso ajudará a compreender os três motivos. Como se vê no gráfico abaixo, em que se demonstra a evolução da Ibovespa nos últimos 2 meses, nota-se que, justamente na segunda-feira após o primeiro turno das eleições(05/10), houve uma subida – desproporcional com o andamento do mercado financeiro se pararmos para analisar o período anterior – de 7,7%. O mercado se posicionou, portanto, otimista quanto ao futuro, levando em consideração a predominância de políticos de direita na Câmara dos Deputados e do Senado, além de uma perspectiva de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno do embate presidencial.


Essa posição de otimismo se manteve durante todo o período de campanha do segundo turno, aonde a Ibovespa chegou em sua máxima histórica de 209.066,90 pontos. O otimismo do mercado permaneceu até o último fechamento da bolsa antes da eleição, na sexta-feira dia 23/10, com 205.082,56 pontos – isso mesmo com as pesquisas eleitorais apontando que ainda haveria possibilidade de virada. A aposta era que, ainda assim, o candidato desejado pelo mercado financeiro venceria.


Ibovespa: a alta do 1º turno e a queda após o 2º


Fonte: B3, via Radar Ibov


Vale uma ressalva antes de continuar. A bolsa de valores não reflete totalmente a economia real. Trata-se, na verdade, de uma mistura entre o reflexo do desempenho econômico do país e, por consequência, de suas empresas, com uma dose altíssima de expectativa de qual será o andamento tanto do próprio desempenho econômico, quanto das ações em si. Então, por mais que exista um grau de influência da economia real na precificação de ativos, há também uma participação muito significativa da especulação. Boa parte dos acionistas tenta prever qual ação terá mais demanda de compra no futuro (na maioria das vezes um futuro que precisa ser muito próximo), para apostar na compra desta enquanto está em nível mais baixo e obter rendimento quando seu preço subir.


Trata-se do concurso de beleza keynesiano (Keynes, 1936, cap. 12), em que os investidores, muitas vezes, não compram ações pensando no valor fundamental da empresa, ou em seu potencial de crescimento, mas sim tentando prever o que a média do mercado vai achar e, assim, tentar antecipar o movimento e obter ganhos no curto prazo. Segundo essa linha de raciocínio, flutuações no curto prazo tendem a não refletir o valor intrínseco da ação, o que causa flutuações artificiais e irracionais na bolsa de valores. E essa linha pode explicar dois dos três motivos por trás da queda desproporcional do Ibovespa no dia 26/10.


O primeiro deles é o motivo especulação. Justamente buscando antecipar o movimento do mercado frente ao resultado das eleições de 2026 em seu primeiro turno, há uma subida desproporcional ao que vinha acontecendo antes, fazendo com que as ações se mantivessem artificialmente infladas durante todo a campanha do segundo turno. Não houve mudanças significativas na economia brasileira que justificasse uma mudança positiva nas expectativas do dia 02/10 para o dia 05/10, que justificasse uma subida de 7,7% na precificação média das ações negociadas na B3. As expectativas se mantiveram altas até a véspera do segundo turno, o que demonstra que o mercado financeiro, por mais que houvesse uma possibilidade de virada, apostava que Flávio venceria e, assim, as ações se valorizariam ainda mais. Não há aqui indícios na economia real que indicasse isso. Trata-se de pura especulação.


Com o resultado do segundo turno, novamente os agentes do mercado financeiro, tentando antecipar o movimento do dia 26/10, entram vendendo em massa suas ações, derrubando muito a média de preço dos ativos. Os acionistas que não venderam num primeiro momento, quando veem a queda no preço dos ativos, também decidem vender, de forma a tentar evitar perdas, puxando a bolsa ainda mais para baixo. Esse é um movimento de manada, onde o acionista, na dúvida de como prosseguir frente a uma mudança – como foi o caso do resultado inesperado da eleição presidencial –, acaba seguindo o fluxo dos outros agentes, muitas vezes de forma irracional e repentina.


Representa o que chamamos de Profecia Autorrealizadora, onde uma expectativa quanto ao futuro se concretiza justamente por causa dos efeitos de si própria. Com o resultado das eleições para presidente, era esperado que a precificação das ações – já inflada artificialmente –  cairia logo que o pregão abrisse no dia seguinte. Esperando esse efeito, os acionistas começam uma corrida para vender suas ações, entrando no efeito manada, concretizando, assim, o que se havia previsto no dia anterior.


Não surpreendentemente a queda da bolsa causou, indiretamente, outro impacto: a valorização do dólar americano (USD) frente ao Real (BRL). Como vemos no gráfico abaixo, o câmbio entre real e dólar fechou em R$ 5,40 no dia 26/10, contra R$ 5,03 (23/10), ou seja, um crescimento de 8,21% – novamente, muito discrepante do que se acompanhava em períodos anteriores. Esse movimento pode ser interpretado pelo que Keynes (1936) chamava de preferência pela liquidez, onde, em momentos de instabilidade política ou até mesmo econômica, os agentes tendem a abandonar ativos de maior risco, como é o caso de ações na bolsa de valores, e buscar refúgio em ativos de maior liquidez, que permitam mais facilidade de acesso e que tendencialmente sejam menos voláteis, que é o caso da moeda estadunidense.



Evolução do câmbio Real-Dólar entre 1º e 2º turno


Fonte: Banco Central do Brasil, PTAX de venda


Tudo isto posto, é possível associar que parte da brusca queda na bolsa de valores vem de um ajuste de expectativas, já que o preço médio das ações estava artificialmente inflado após uma perspectiva otimista do mercado financeiro frente a eventual eleição de um governante de seu agrado, e pelo movimento de manada que aprofundou tal retração, já que, quando o consenso se quebra, todos tentam sair ao mesmo tempo para perder o menos possível, puxando os preços ainda mais para baixo. É seguro atribuir a esses dois motivos responsabilidade, pois não houve mudança substancial alguma na economia real que justificasse tanto o crescimento do valor médio das ações, quanto a retração brusca do dia 26/10. Foi uma mudança com caráter predominantemente especulatório, já que seria muito pouco provável que a economia tenha se degenerado de forma tão profunda ao ponto de oferecer esse nível de pessimismo do mercado. Contudo, vale dizer que não são os únicos.


O terceiro motivo é de natureza diferente dos dois primeiros, pois é político. A queda do dia 26/10 não foi apenas um ajuste de expectativas. Foi um ajuste de expectativas gerado a partir de uma insatisfação do mercado financeiro com o resultado das urnas. O mercado entende que o governo eleito não deve operar as mudanças e ajustes que julga necessárias. E isso é padrão quando governos mais progressistas são eleitos. O mercado financeiro entende que a economia brasileira precisa de um ajuste fiscal, de forma a colocar as contas em dia, devido a um suposto nível de gastos superior ao que seria seguro. Claro, Nos dias seguintes, a cobrança ficou explícita: o mercado passou a exigir “sinais claros” sobre ajuste fiscal, corte de gastos e o nome da futura equipe econômica.


Kalecki já descrevia esse mecanismo em 1943, no ensaio “Aspectos políticos do pleno emprego”. Para ele, o chamado “estado de confiança” dá aos detentores do capital um poderoso controle indireto sobre a política do governo. Isso, pois, a partir do momento que os meios de produção estão nas mãos do capital privado e considerando um governo nacional que não entende que pode ele próprio estimular o investimento e que o capital privado é apenas uma ferramenta para atingir esse objetivo, qualquer medida que abale o estado confiança do empresariado passa a ser tratada como ameaça de crise e, por isso, precisa ser evitada. A queda da bolsa funciona, nesse sentido, como um instrumento de pressão. Quanto maior o tombo, maior a cobrança para que um governo recém-eleito adote a agenda preferida pelo mercado, e não aquela escolhida nas urnas.


O problema é que, ao longo das últimas décadas, o setor financeiro acumulou tanto poder político que consegue impor sua própria agenda ao Estado. Uma agenda que, geralmente, exige que se tenha austeridade fiscal rígida, com cortes em áreas como saúde, educação e infraestrutura, e juros altos, que protegem o valor real dos títulos da dívida pública que esses agentes detêm. No Brasil, onde boa parte da dívida pública é remunerada pela Selic ou corrigida pela inflação, os credores têm interesse direto em juros elevados e em um governo que priorize o pagamento da dívida sobre qualquer outro gasto. É a  financeirização da economia, ou seja, a dominância das finanças sobre a política econômica como instrumento de desenvolvimento.


O impacto disso sobre a economia real é concreto. A política econômica passa a servir, antes de tudo, para garantir o pagamento de juros aos rentistas, retirando do governo os recursos que poderiam ser usados para induzir o pleno emprego e o desenvolvimento industrial. Os números de 2025 ilustram a distorção: o setor público gastou cerca de R$ 1 trilhão com juros, o equivalente a 7,9% do PIB, enquanto o déficit primário, isto é, o resultado das receitas menos os gastos com saúde, educação, previdência e investimentos, foi de apenas 0,4% do PIB. Ou seja, o que pesa sobre a dívida pública não é o gasto social, mas o custo dos juros. Keynes (1936, cap. 24) defendia justamente o oposto, isso é, o que ele chamava “eutanásia do rentista”, que seria a manutenção de juros baixos o suficiente para que a riqueza deixasse de render apenas por ser emprestada e passasse a ser investida na produção.


Sob essa ótica, a reação do dia 26/10 não é só um reflexo de expectativas frustradas, mas também um recado: o mercado sinaliza ao novo governo qual política econômica espera, e usa a volatilidade como forma de pressão para obtê-la.

Os três motivos (especulação, manada e pressão política) ajudam a explicar uma queda que não encontra justificativa na economia real, já que a produção, o emprego e a renda do país eram, na segunda-feira, os mesmos da sexta-feira. Isso não significa que o movimento seja inofensivo. Se juros e dólar permanecerem elevados por muito tempo, o crédito encarece e os preços sobem, e o choque financeiro pode, sim, contaminar a economia real. Por isso, o que vai definir os efeitos do episódio não é o pregão do dia seguinte, mas as escolhas de política econômica dos próximos meses, e se elas serão feitas para atender as urnas ou o mercado.

 

 

 

REFERÊNCIAS


BANCO CENTRAL DO BRASIL. Cotações e boletins: taxa de câmbio PTAX (dólar dos Estados Unidos). Brasília, DF: BCB, 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/historicocotacoes. Acesso em: 30 out. 2026.


CONTAS públicas têm déficit de R$ 55,021 bilhões em 2025. Agência Brasil, Brasília, DF, jan. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-01/contas-publicas-tem-deficit-de-r-55021-bilhoes-em-2025/. Acesso em: 30 out. 2026.


ESTRESSE segue? Por que Ibovespa caiu 2,7% hoje após terça mais tranquila no mercado. InfoMoney, São Paulo, 28 out. 2026. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/mercados/ibovespa-estresse-continua-por-que-indice-cai-forte-apos-terca-mais-tranquila-no-mercado-28102026/. Acesso em: 30 out. 2026.


IBOVESPA fecha em baixa de 13,9%, maior queda diária em 6 anos; dólar dispara 8,2%. Exame, São Paulo, 26 out. 2026. Disponível em: https://exame.com/live-blog/invest/bolsa-dolar-mercado-26-outubro-apos-eleicoes/. Acesso em: 30 out. 2026.


KALECKI, Michał. Political aspects of full employment. The Political Quarterly, London, v. 14, n. 4, p. 322-330, 1943.


KEYNES, John Maynard. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Tradução de Mário R. da Cruz. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Os Economistas). Publicado originalmente em 1936.


PESQUISA presidente Quaest: na véspera do 2º turno, Flávio Bolsonaro tem 51% e Lula, 49%. Exame, São Paulo, 24 out. 2026. Disponível em: https://exame.com/brasil/pesquisa-quaest-na-vespera-do-2o-turno-flavio-bolsonaro-tem-51-e-lula-49/. Acesso em: 30 out. 2026.


RADAR IBOV. Arquivo: fechamentos diários do Ibovespa. [S. l.], 2026. Disponível em: https://radaribov.com.br/arquivo.html. Acesso em: 30 out. 2026.

 

 


 
 
 

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