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Análise: um Brasil com Flávio Bolsonaro

Foto do escritor: Enrico Pallone
Enrico Pallone
9 de out.
23 min de leitura

A análise aqui produzida foi estimulada pelos resultados no primeiro turno das eleições brasileiras de 2026. A extrema direita varreu praticamente todas as instâncias de concorrência, restando a disputa para presidência em aberto, mas com um cenário difícil, mesmo que contornável, para a frente ampla e democrática que tenta combater o extremismo do outro lado. A proposta dessa página é de tentar discutir temas importantes do dia a dia, em especial questões econômicas, no meu caso. Economia e política, entretanto, caminham lado a lado e de forma muito próxima. Isso pois, boa parte das decisões econômicas são estimuladas, primariamente, por ideologia política.


É um erro defender o tecnicismo econômico sem envolver ideologia em uma análise. TODA e qualquer análise parte de pressupostos e adota vieses para imprimir sua visão. NÃO EXISTE economia sem política e sem ideologia. Dessa forma, é de suma importância tentar contribuir para o debate sobre as duas candidaturas que se apresentam no segundo turno e tentar discutir a respeito do que pode ser o futuro do país se a extrema direita for vitoriosa também na eleição para presidente.


O cenário já é muito complicado: senado e câmara dos deputados possuem predominância de partidos de extrema direita. Com um presidente dessa linha eleito, há potencial para que se implemente suas visões e propostas de forma muito mais livre e facilitada do que aconteceu entre 2019-2022. Pretende-se, portanto, fazer um panorama do que pode acontecer caso esse cenário se concretize, considerando que quaisquer previsões possuem potencial de erro.


Para tal, a intenção é comentar os principais pontos do projeto de Flávio Bolsonaro para a economia brasileira, em especial o documento que descreve suas propostas de governo, homologado no site do TSE. Não é de intenção deixar de lado todos os outros pontos, que são igualmente – senão mais – alarmantes, como suas propostas para segurança e saúde pública, direitos humanos, educação e meio ambiente. Contudo, limitada pela capacidade do autor desta análise, será apresentada somente uma visão sob o panorama econômico, ponto a ponto do que se aborda no projeto de Flávio.



1 – “Trabalho que compensa”


O programa de governo atesta que “o custo de um trabalhador formal chega a cerca de duas vezes o salário que ele leva para casa” e que isso poderia ser uma justificativa para falta de contratações ou excesso de contratações em regime de informalidade. Para começo de conversa, essa já é uma afirmação frágil. Primeiro, porque o custo de um trabalhador formal não chega a duas vezes o seu salário. Essa é uma comparação que se faz tradicionalmente, primeiro, considerando somente o salário líquido que cai na conta do trabalhador. Contudo, essa metodologia desconsidera que boa parte dos encargos beneficiam efetivamente o trabalhador, como é o caso do 13º salário, das férias (que é um salário pago ao trabalhador para que ele fique um período em descanso) e FGTS, por exemplo. Além disso, a parcela que “não volta” para o trabalhador, que seria, por exemplo o INSS patronal (20%) e seguro de acidente de trabalho (em média 2%), serve de resguardo para o próprio em caso de acidentes de trabalho e para contribuição de sua aposentadoria.


Contabilizando através do conceito padrão da OCDE, a cunha fiscal, que soma contribuições do empregador e do empregado e o imposto de renda, menos os benefícios, equivale em média entre 25,5% (Nogueira et al., 2013)  e 34,7% (Pires; Stivali; Reis, 2023) do custo total do trabalho no Brasil. Ou seja, de cada R$ 100 gastos pelas empresas com um trabalhador formal, cerca de R$ 25 a R$ 34,7 corresponde a encargos que “não voltam” e entre R$ 74,5 a R$ 65,3 vão diretamente para o trabalhador. Portanto, o custo total para o empregador aumenta entre 1,3 e 1,5 vezes, o que é muito menos do que o dobro, como defende o programa de governo.


Além disso – e pior – a proposta diz ter uma solução para “reduzir gradualmente o custo do trabalho, sem retirar direitos”, mas não explica como vai fazê-lo. Simplesmente há uma menção muito superficial sobre a pretensão de novas modalidades de contratação para jovens de 18 a 24 anos e para pessoas de 50 anos ou mais que estejam desempregadas há mais de 12 meses, sem explicar como se pretende implementá-la.


Defende-se, também, “liberdade” para quem trabalha, jornadas flexíveis e a prevalência para as negociações entre trabalhadores e empresas – tudo que já havia sido implementado com a Reforma Trabalhista de 2017 e que não foi alterado desde então. Basicamente, uma continuidade e, talvez (aqui a dúvida gerada pela superficialidade da proposta, mas que é algo que tem sido prometido verbalmente pelo candidato), aprofundamento do que já foi feito através da Reforma Trabalhista. Vamos aos dados para analisar como operou a economia brasileira, sobretudo no que diz respeito ao mercado de trabalho, desde 2017.


Taxas de subutilização, desocupação e informalidade no Brasil (2012–2026)



Fonte: PNAD Contínua, IBGE. Elaboração Própria.


Primeiro, como se vê nos gráficos acima, os três índices seguem padrões muito parecidos. Partindo de 2017, o nível de desocupação está em alta (na casa dos 11%) e segue assim mesmo com a Reforma Trabalhista e as novas modalidades de contratação (trabalho intermitente) e permissões de negociação entre empregado e empregador. Sem nenhuma surpresa, há uma alta significativa no nível de informalidade, que se mantêm em crescimento até 2019. A taxa composta de subutilização – indicador que agrupa desocupados, subocupados, ou seja, que gostariam de trabalhar mais horas mas não encontram oportunidade, e os desalentados – segue o mesmo padrão. Isso demonstra que a maior flexibilidade não resultou em queda no desemprego, que só volta a cair a partir de 2022 – sobretudo de 2023 em diante –, o que representou desemprego acima dos 10% durante 6 anos.


Em 2020, por causa dos impactos econômicos da COVID-19, os empregos mais precários – com menos proteção –, que são característica das ocupações informais, sofreram muito, o que gera a queda brusca no grau informalidade. Empregados informais são os primeiros a serem demitidos frente a crises. Isso acontece, pois os empregos formais possuem mecanismos que dificultam a demissão. Tais ferramentas não servem somente para proteger o trabalhador contra oscilações, como também a própria economia, já que demissões em massa decorrentes de instabilidades geram ainda mais crise, devido a uma maior quantidade de pessoas que não mais consomem ou consomem menos.

Nota-se, além disso, que o nível de informalidade, de desocupação e de subutilização da força de trabalho vem caindo desde 2022, mas com mais força de 2023 em diante – especialmente em 2025. Tanto a desocupação, quanto a subutilização atingem o menor nível da série histórica, iniciada em 2012.


Serão abordados, aqui, somente o que efetivamente foi protocolado como proposta de governo. Contudo, se levássemos em conta o que o candidato fala, situações muito piores poderiam se passar, como é o caso de uma ampliação da contratação e pagamento por hora trabalhada. Isso representaria um problema muito grande, já que o pagamento por hora trabalhada significa transferir para o trabalhador o risco que hoje é da empresa. A experiência do contrato intermitente, criado em 2017, é sintomática quanto a isso. Em 2025, metade desses contratos não gerou nenhuma renda, e a remuneração média foi de R$ 703 mensais, menos da metade do salário mínimo (DIEESE, 2026). Contudo, será analisado somente o documento apresentado, por motivo de organização e contraposição de ideias. 


Portanto, flexibilizar as relações de trabalho, fazendo com que empregados e empregadores negociem sobre o que é legislado, adotando jornadas mais flexíveis e modalidades de contratação mais vantajosas para as empresas, não tiveram bom resultado no nível de contratações, muito pelo contrário. Como veremos mais adiante, salários ficaram estagnados, a inflação cresceu muito e o desempenho econômico foi muito baixo.


Curiosamente, nada se fala na proposta sobre a valorização do salário-mínimo, sobre saúde e segurança do trabalho e sobre desigualdade salarial. Não há um parágrafo sequer apresentando uma ideia concreta sobre alguma medida para que os trabalhadores de aplicativo – tão expostos à acidentes e incertezas – tenham mais segurança e previsibilidade. Não é tão inesperado, se analisarmos como foi a abordagem do outro governo bolsonarista de 2019-2022, o que será feito mais adiante.


O que se pode prever, portanto, é que a pretensão do governo bolsonarista – aprofundar os efeitos da Reforma Trabalhista de 2017 – tende a não resolver o problema da informalidade, muito pelo contrário. A tendência é que a situação de emprego das pessoas seja mais precarizada.


Some-se a isso a intenção já indisfarçável de grande parte da bancada eleita na câmara e no senado de extinguir a Justiça do Trabalho e o horizonte que se vislumbra torna-se ainda mais nebuloso.


Considerando que certamente teremos momentos instabilidade gerada por crises climáticas, ambientais, econômicas e políticas no futuro, tornar o trabalhador brasileiro menos protegido contra oscilações é jogar a população contra uma inevitável crise. Quanto mais problemas surgem, mais é necessário que o governo seja ativo promovendo proteção da população. Se as pessoas estiverem desamparadas, não somente na questão empregatícia, mas em suas vidas como um todo, maiores as chances de crise frente a oscilações.



2 – “Inflação no centro da meta”


Esse, talvez, seja o tema mais difícil de rebater das propostas apresentadas. Não por conta da qualidade da argumentação, mas por conta da complexidade do tema. O documento de proposta de governo bolsonarista inicia seu debate sobre os preços falando que cada vez se consegue comprar menos no mercado. Essa afirmação não está de todo equivocada, realmente os preços, em especial o preço dos alimentos, estão em descompasso com o salário da população.


Apresenta-se como motivação para tal perda de poder de compra, primeiramente, o suposto alto grau de endividamento do governo, que “volta para a família em forma de imposto no preço, de juro no cartão e de dinheiro que compra menos”; em segundo, o aumento na tributação.


Ambas as afirmações são extremamente discutíveis, para não se dizer que têm pouca base na realidade. Analisar se a dívida de um país é muito alta ou não é um tema complexo, que será abordado de forma mais completa em outro texto a ser publicado posteriormente, para que a presente análise não fique demasiadamente extensa e para evitar perder o foco. Contudo, o que se pode dizer é que a dívida pública possui um baixo risco de acarretar negativamente na economia brasileira.


O Brasil tem uma Dívida bruta (DBGG), em agosto de 2026, que representa 82,5% do PIB (Banco Central, 2026). Esta, por sua vez, é quase toda em reais, com cerca de 3,75% atrelada ao câmbio (dívida externa - DPMFi), e 90% dela é detida por credores domésticos, como bancos, fundos de previdência e fundos de investimento (Brasil, 2026c). Ter uma dívida que em sua maior parte precisa ser paga em reais faz com que o país praticamente não tenha chance de insolvência, já que o Brasil emite a própria moeda em que a dívida foi feita. Ter credores em território nacional faz com que os juros pagos voltem em parte como renda dentro do próprio país, diminuindo o risco de uma crise cambial como a dos anos 1980. Além disso, o principal motor do crescimento recente da dívida não é o gasto do governo, já que o déficit primário acumulado em 12 meses (09/2025 – 08/2026)  foi de 0,6% do PIB, 6,5% do déficit total.


A situação dramática é a da conta de juros, pois as despesas com juros no mesmo período acumularam R$ 1,182 trilhão, o que representa 8,9% do PIB e 93,5% do déficit total, puxadas pela Selic elevada (Banco Central do Brasil, 2026). O crescimento recente da dívida brasileira é, portanto, muito mais consequência da política monetária, do que oriunda de uma suposta gastança do governo. Pelo mesmo motivo, os gastos primários do governo – que são todas as despesas públicas realizadas para prover bens e serviços à população e manter a máquina administrativa funcionando – não explicam a alta de preços que pesa no bolso. Assim, quando a proposta de governo bolsonarista diz que é preciso cortar os gastos, na prática, o que querem dizer é que se faz necessário tirar dinheiro da educação, da saúde, da previdência, sem considerar que estes custos, que são fundamentais para o bem-estar da população brasileira, não representam nem 10% do déficit total.


Prosseguindo, agora referente à questão da alta tributação, trata-se de uma meia verdade. Novamente, é um tema complexo e que leva tempo a ser discutido, o que será feito em outra oportunidade. Contudo, o que se pode dizer é que o governo Lula (2023-2026) criou sim modalidades de impostos. Entretanto, a maioria deles foi para fazer quem não contribuía e tinha altos ganhos passasse a pagar algum tributo. Foram em sua grande parte taxas para pessoas de alta renda – como foi o caso da tributação de dividendos, de fundos de investimentos exclusivos e offshore. Não somente isso. Como o governo isentou pagamento de imposto para quem ganha até R$ 5 mil reais, além da redução do imposto para quem recebe entre R$ 5.000,00 e R$ 7.350,00, tais medidas resultam que cerca de 15 milhões a mais de pessoas sejam beneficiadas por isenção ou redução na carga de tributos. Portanto, houve mudanças nos impostos, inegavelmente. A carga variou pouco, e as mudanças tornaram o sistema mais progressivo, tributando altas rendas e isentando parte da base.


A carga tributária em relação ao PIB cresceu timidamente em relação à do governo antecessor: em média, durante o governo Bolsonaro (2019-2022) a carga tributária foi de 30,4%, enquanto que a média no atual governo, até o momento, é de 31,6% segundo o Tesouro Nacional (Brasil, 2026b). É um aumento real, mas moderado, e longe de ser explosivo. E a inflação não acompanhou esse movimento, já que o IPCA foi de 4,62% em 2023, 4,83% em 2024 e 4,26% em 2025. Inflação descontrolada foi a de 2021 e 2022, quando o índice chegou, por exemplo, a 12,13% em 12 meses, acumulados em abril de 2022, um nível muito acima de qualquer marca registrada de 2023 em diante, como se demonstrará. Além disso, os reais causadores de aumento dos preços nos últimos anos foram o crescimento do preço dos alimentos, da energia, e dos efeitos oriundos de problemas climáticos e geopolíticos, não de impostos.


Avançando, como propostas de solução do problema – ou quem sabe projeto de proposta, já que, uma vez mais, são extremamente superficiais e sem explicar exatamente o que se quer fazer –, o governo bolsonarista alega que pretende utilizar política fiscal como instrumento anti-inflacionário, através de superávits primários, controle dos gastos discricionários dos Três Poderes (Legislativo, Judiciário e Executivo), limitação crédito subsidiado pelo Tesouro Nacional e redução de impostos sobre consumo. Uma cartilha muito conhecida e que até pode ter algum tipo de resultado sobre o controle inflacionário. Contudo, geralmente, essa abordagem faz com que a maioria da população tenha que pagar o preço do controle inflacionário, já que cortes de gasto significam menor atuação do governo estimulando a atividade econômica e, portanto, desaquecendo a economia. Além disso, os serviços públicos tendencialmente são deteriorados, já que os cortes sempre vêm na educação, na saúde e na segurança. Até é possível fazer controle inflacionário dessa maneira, mas ocorre às custas do bem-estar da população. O ponto principal no nosso caso é que a inflação não está em descontrole. Vejamos a seguir.



IPCA e inflação de alimentos em relação à meta de inflação



Fonte: IBGE (IPCA, PNAD Contínua) e BCB (SGS 433, 1619). Elaboração própria.

Nota: A faixa verde corresponde à meta de inflação (tracejado) e as bandas de intervalo aceito (área verde).


Como se nota no gráfico acima, durante o governo Bolsonaro (2019-2022) houve uma grande instabilidade inflacionária, já que em boa parte do período a inflação (representada pela linha azul) se manteve fora da meta (representada pela faixa verde). As instabilidades geradas são atribuídas à COVID-19 e à Guerra entre Rússia e Ucrânia. Durante o governo Lula (2023-2026), o contrário acontece: inflação dentro da meta durante quase todo o período, com escapes de baixa intensidade somente no ano de 2025, isso enfrentando ainda mais guerras em curso, já que o mundo vive seu período de maior quantidade de conflitos entre nações desde a Segunda Guerra Mundial. Portanto, a inflação esteve controlada durante todo o governo Lula, com níveis de crescimento econômico superiores ao governo Bolsonaro, desemprego em baixa histórica e, como veremos abaixo, com recomposição do poder de compra da população brasileira.



Evolução Real: rendimento médio real x salário mínimo real



Fonte: IBGE (PNAD Contínua) e BCB (SGS 1619).

Nota: Deflator utilizado IPCA.


O gráfico acima demonstra o comportamento dos salários (rendimento médio e salário mínimo) nos últimos 13 anos. Os salários se mantiveram estáveis, com pouquíssimo crescimento acima da inflação (que é o crescimento que aumenta o poder de compra da população) entre 2017 e 2020. Eles diminuem entre 2021 e 2022, ou seja, não houve reajuste acima da inflação em pelo menos metade do governo Bolsonaro. Isso sim é que faz com que o dinheiro das pessoas compre menos do que antes. A inflação durante boa parte do governo Bolsonaro foi significativamente alta, acima da meta durante praticamente todo o período, e não houve compensação disso no salário das pessoas.


Os preços não voltam. Quando há aumento no valor dos produtos e serviços, esse valor tende a se manter, sem voltar aos preços de antes. Por isso não conseguimos ir ao mercado e fazer compras como antes, com poucos reais adquirir muitos produtos. Isso dificilmente vai acontecer, a não ser que haja um movimento político para que se mude drasticamente os níveis de preço, como foram os choques dos anos 1980 e 1990. Portanto, para que as pessoas continuem a consumir na mesma medida ou até mais (o que é ideal em uma sociedade capitalista), é preciso que os salários cresçam mais do que a inflação. Isso é fundamental. Salários estagnados significam desempenho econômico ruim e queda de bem-estar das pessoas. Isso se confirma com o gráfico abaixo.


O governo Bolsonaro (2019-2022), ao não recompor o salário mínimo como deveria (que serve como referência para boa parte dos salários e para os benefícios do INSS), fez com que o poder de compra da população caísse e esse é um dos grandes motivos – somado ao endividamento da população, que não será tratado aqui – pela sensação que temos hoje em dia que os preços estão muito altos, mesmo com inflação controlada e salários crescendo constantemente, recompondo parte do poder de compra perdido.


Poder de compra do salário mínimo e do rendimento médio, deflacionados pelo IPCA e pelos alimentos (2016–2026)


Fonte: IBGE (IPCA, PNAD Contínua) e BCB (SGS 433, 1619). Elaboração própria.

Nota: As variáveis acompanhadas de “em alimentos” foram deflacionadas pelo índice de inflação dos alimentos.


Acima, ilustra-se o mesmo comportamento do salário mínimo real e do rendimento médio real, mas adiciona-se o poder de compra de alimentos que eles possuem. É importantíssimo fazer essa comparação pois boa parte da percepção de como os preços das coisas estão, vem do quanto conseguimos comprar no mercado. Como vemos, de 2020 a 2022 (governo Bolsonaro) há uma brusca queda do poder de compra de alimentos da população. Esse poder de compra vem se reconstituindo desde 2023 (governo Lula). Entretanto, a perda da capacidade de adquirir alimentos foi tão substancial que mesmo quase 4 anos seguidos de aumento não foram suficientes para recuperar os patamares de antes da queda ocorrida a partir de 2020. Foi possível, contudo, restituir o poder de compra dos produtos em geral (inflação total) pré-pandemia, o que é um feito enorme, levando em consideração que o atual governo está estrangulado por um congresso predominantemente de oposição e por uma regra fiscal muito difícil de se trabalhar (e que foi proposta pelo próprio governo, para dizer a verdade).


Importante salientar que boa parte da sensação de ter menos poder de compra vem também do alto grau de endividamento das famílias, com mais de 80% delas endividadas, e cerca de 30% com contas em atraso (CNC, 2026). Considerando uma taxa de juros que se mantém desproporcionalmente alta, esse grau de endividamento drena os recursos financeiros das pessoas, fazendo com que o poder de compra seja comprometido. Entretanto, o fato é que o governo tem trabalhado com sucesso em recompor o poder de compra da população através dos estímulos ao aumento dos salários acima da inflação.

 

A sensação de preços altos, portanto, decorre da própria forma de abordagem utilizada durante todo o governo Bolsonaro (2019-2022). Flávio promete seguir uma linha muito parecida com a do pai, com redução de custos do trabalho, com menos fiscalização e regulamentação das relações de trabalho e uma política de corte de gastos que, além de minar a capacidade do governo de estimular a economia, tendencialmente retira garantias, direitos e serviços da população, obrigando as pessoas a destinar parte de seus rendimentos para educação, saúde e segurança, serviços estes que eram garantidos ou cobertos parcialmente pelo governo. A tendência é que o poder de compra seja ainda mais comprometido.



3 – “Tesouraço”


A principal proposta fiscal do candidato bolsonarista é a do “Tesouraço”. O candidato vem prometendo – tanto em sua proposta de governo, quanto em entrevistas, como fez seu assessor (Brasil 247, 2026) –, um corte "profundo e por todos os lados", para enxugar a máquina pública, equilibrar as contas e reduzir impostos. As medidas concretas incluem o corte de no mínimo dez ministérios, a redução de cargos comissionados e de despesas administrativas, o combate a supersalários e "penduricalhos", a continuidade da reforma administrativa e a digitalização de serviços. No campo das regras fiscais, propõe reformular o arcabouço vigente, com foco na estabilização e na redução da dívida/PIB, entregar superávits primários, limitar o crédito subsidiado pelo Tesouro e criar uma regra de controle dos gastos discricionários dos três Poderes. Completam o pacote a maior transparência das emendas parlamentares, a “profissionalização” das estatais, a retomada da desestatização "caso a caso" e um programa antifraude na Previdência.


Tudo muito vago, sem quantificar ou qualificar mais a respeito do ajuste que se pretende fazer. O que nem a proposta, tampouco o candidato, falam é que os itens que se promete mudar, cortar ou enxugar possuem peso muito reduzido no orçamento federal.


O candidato vem prometendo um corte de R$ 200 bilhões em despesas primárias, algo na casa de 1,5% do PIB, contudo, como de costume, sem detalhar como e em que medida será feito tal enxugamento. Portanto, o que podemos fazer é tentar estimar o que esse valor significa. Para começar, é importante descrever como funciona a despesa do governo, mesmo que de forma sucinta – isso também será alvo de futura investigação.


As despesas primárias são todos os gastos do governo federal, exceto os juros e a amortização da dívida pública. Nisso se incluem aposentadorias, salários de servidores, programas sociais, saúde, educação, custeio da máquina pública e investimentos, e é sobre elas que se calcula o resultado primário e o limite do arcabouço fiscal. No Projeto de Lei Orçamentária de 2027 (PLOA 2027), somam R$ 2,83 trilhões (19,1% do PIB). Desse total, 91,7% são despesas obrigatórias, que o governo tem de pagar por força da Constituição ou de leis, e apenas 8,3% são discricionárias, ou seja, cuja execução depende de decisão do gestor do orçamento, o Poder Executivo (Brasil, 2026c).


Entre as obrigatórias, o maior item são os benefícios previdenciários do INSS (R$ 1,2 trilhão). Vêm depois o pessoal e encargos (R$ 474 bilhões), o Bolsa Família (R$ 155,8 bilhões), o Benefício de Prestação Continuada (cerca de R$ 145 bilhões), o abono salarial e o seguro-desemprego (cerca de R$ 105 bilhões) e as sentenças judiciais (R$ 101 bilhões). Nenhum desses gastos pode ser cortado por simples decisão do governo. A Previdência e o BPC estão atrelados ao salário mínimo e protegidos pela Constituição. Os salários dos servidores não podem ser reduzidos, e as decisões judiciais e precatórios só podem ser adiadas, não há como deixar de pagá-las. Mudanças nesses itens exigem emendas constitucionais ou reformas legais, para, ademais, produzirem apenas efeito gradual, não imediato. Saúde e educação contam ainda com mínimos constitucionais que, em 2027, somam R$ 272,16 bilhões e R$ 141,2 bilhões, respectivamente (Brasil, 2026a).


O espaço que existe, portanto, para cortes imediatos está nas despesas discricionárias, que somam R$ 222 bilhões, que cobrem o custeio dos ministérios, bolsas da Capes e do CNPq, o Farmácia Popular, as universidades e os investimentos, inclusive o PAC. Mesmo esse espaço é limitado, porque parte das discricionárias serve para cumprir os pisos de saúde e educação, e cortes profundos comprometeriam o funcionamento da máquina pública. Fora das despesas primárias, os gastos tributários (que representam cerca de R$ 612 bilhões em isenções e regimes especiais em 2026) são a principal fonte potencial de ajuste que não exige mexer em direitos sociais, mas estes não são abordados no plano. Assim, uma meta de corte de R$ 200 bilhões como proposto, só pode ser alcançada através de reformas nas despesas obrigatórias, justamente aquelas que se disse preservar, ou via redução das despesas discricionárias, o que afeta diretamente o funcionamento da máquina pública.


Para que se tenha noção, se houver um corte de 100% das despesas discricionárias, ou seja, deixar de pagar todas as contas que os órgãos públicos tem que pagar (contas de água, luz, internet, obras de infraestrutura, recapeamento de vias de trânsito), exceto salários, isso corresponderia a um valor de R$ 222,1 bilhões, de acordo com a PLOA 2027. Vale dizer, para não mexer na constituição, cortar R$ 200 bilhões significaria praticamente deixar toda a máquina pública brasileira sem funcionamento. Claro, isso é um exemplo extremo e que certamente não ocorrerá. Mas serve para demonstrar que, para fazê-lo, o candidato bolsonarista inevitavelmente teria que mudar a Constituição e atingir pontos que vão diminuir o bem-estar da população. 


E é aí que está o grande problema. As verbas cujo corte vem sendo prometido não permitem sequer aproximar-se do montante de redução de gastos pretendida. Por exemplo, os supersalários e "penduricalhos" pagos pela União somaram cerca de R$ 7,34 bilhões em 2025, isso para o todo o Judiciário, Ministério Público e Executivo Federal  (R$ 3,064 bilhões pagos pelo Poder Judiciário e no Ministério Público da União, e R$ 4,28 bilhão no Executivo, concentrados nos advogados públicos). Ainda que o valor, para alguns, seja muito alto, ele representa 3,67% dos R$ 200 bilhões prometidos, e 11,9% do déficit primário do Governo Federal em 2025 (Brasil, 2026c).


Tabela: Gastos com verbas acima do Teto Constitucional por órgão e categoria

Origem

Valor acima do teto

Judiciário e Ministério Público da União

R$ 3,07 bi

      Justiça do Trabalho (24 TRTs)

R$ 1,50 bi

      Justiça Federal (6 TRFs)

R$ 0,58 bi

      Ministério Público da União (MPF, MPT, MPM, MPDFT)

R$ 0,52 bi

      TJDFT (Justiça do DF, paga pela União)

R$ 0,39 bi

      Tribunais superiores (STF, STJ, TST, STM)

R$ 0,07 bi

      Justiça Eleitoral (TSE + 27 TREs)

R$ 0,003 bi

Executivo federal (servidores civis ativos e aposentados)

R$ 4,27 bi

      Advogados públicos ativos (AGU, PGFN, procuradorias)

R$ 3,77 bi

      Advogados públicos aposentados

R$ 0,38 bi

      Demais servidores aposentados

R$ 0,12 bi

      Demais servidores ativos

R$ 0,01 bi

 TOTAL CALCULADO

R$ 7,34 bi

Fonte: Elaboração própria com base em dados da Transparência Brasil (DadosJusBr, 2026), originados do Conselho Nacional de Justiça e do Ministério Público da União, e da Controladoria-Geral da União (Portal da Transparência, 2026).

Nota metodológica: Valores de janeiro a dezembro de 2025. O valor acima do teto foi calculado por contracheque mensal: remuneração bruta (sem 13º salário e terço de férias), mais verbas indenizatórias e honorários advocatícios, menos abate-teto e menos o teto constitucional (R$ 44.008,52 em jan./2025; R$ 46.366,19 a partir de fev./2025). No Judiciário federal e no MPU, considerados os membros ativos. Não inclui Legislativo, militares, jetons nem magistrados aposentados, e há meses sem dados publicados em alguns tribunais. Os valores são, portanto, um piso.


Segundo dados do Portal da Transparência e cálculos aproximados nossos, os cargos e funções comissionados do Executivo federal (CCE e FCE) custaram cerca de R$ 2,1 bilhões a mais do que custaria manter seus ocupantes apenas em seus cargos de origem, isso em 2025. Mesmo que todos fossem extintos, o que é impossível, isso equivaleria a cerca de 1% dos R$ 200 bilhões prometidos. Somando os cargos comissionados, os gastos com verbas acima do Teto Constitucional e a previsão máxima de emendas de comissão disposta no PLOA 2027 (até R$ 12,9 bilhões), chega-se a pouco mais de R$ 22 bilhões, somente 11% da meta. Para realizar um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões, invariavelmente, é preciso cortar em áreas que serão de grande impacto na população, como na saúde, na previdência e nos programas sociais. Não há como enxugar o Estado brasileiro nesse montante sem fazer com que a população perca bem-estar. E mais, a justificativa por trás do “Tesouraço” é que a economia, supostamente, estaria em desequilíbrio, sendo uma medida fundamental para conter a inflação e impulsionar o crescimento econômico.


Contudo, como já vimos, a inflação está controlada desde o começo do atual governo – esteve descontrolada, justamente, no antecessor. Além disso, a ideia de que enxugar a máquina pública induz ao crescimento é muito discutível. Diminuir as despesas pode contribuir em algum momento para reduzir os gastos com pagamento de juros da dívida e, até, com a queda da própria taxa de juros em si, o que efetivamente incentiva o crescimento econômico. Entretanto, cortar gastos do governo faz com que também haja impacto negativo na demanda agregada da economia. Quando o Estado faz obras de infraestrutura, constrói estradas, contrata servidores e paga benefícios (como o Bolsa Família ou o BPC), esse dinheiro está entrando diretamente na economia, via consumo.


Cortes de custos impactam diretamente na queda do consumo e, portanto, no volume de atividade econômica. De mais a mais, deixar de investir em infraestrutura, saúde, educação, transporte, resulta em queda na produtividade da economia. O funcionamento do Estado é fundamental para que as pessoas consigam se locomover, tratar doenças, cuidar de suas famílias. Tudo isso impacta no bom rendimento no trabalho. Assim, menos investimento estatal, para além de impactar negativamente no consumo, também tende a diminuir a produtividade, a depender de como os cortes de gastos são feitos.


E essa é uma tendência: sempre que são feitos ajustes fiscais operados através da cartilha neoliberal de Washington (austeridade fiscal), quem paga é a população, que sempre perde conforto, bem-estar e segurança. O caso da Argentina é sintomático. O presidente Javier Milei, também de extrema direita, operou a política da “motosserra” (qualquer semelhança com o “Tesouraço” não é mera coincidência), aplicando um severo plano de austeridade fiscal. Como resultado, o custo do ajuste recaiu sobre a população, já que mais de 50% se encontravam abaixo da linha da pobreza em 2024 (INDEC, 2024). Mais da metade do país abaixo da linha da pobreza. Além disso, estimativas indicam (JP Morgan, 2026) que houve um novo período de retração na atividade econômica durante terceiro trimestre de 2026 (Julho, Agosto, Setembro), o que configuraria que o país está em recessão, já que o segundo trimestre do ano (Abril, Maio, Junho) também apresentou retração na atividade econômica.


Há, ainda, mais um agravante. A Argentina já vinha de períodos de instabilidade econômica, altos índices de inflação e pobreza. O Brasil, não. Nós estamos vindo de 4 anos em que o governo brasileiro, por mais limitada que tenha sido sua atuação, organizou o funcionamento do país. Estabilizou a inflação, que foi descontrolada durante todo governo Bolsonaro, fez os salários subirem, recuperou o poder de compra, manteve o crescimento econômico estável, mesmo que tímido, sem esfolar a população para isso e sem que a dívida pública crescesse de forma descontrolada. Portanto, as justificativas para um enxugamento da máquina pública, simplesmente, não existem. A perspectiva, caso uma medida tão brusca de austeridade seja implementada é de algo muito parecido com o que se vê na Argentina nos últimos 3 anos: queda do bem-estar da população, profunda precarização do mercado de trabalho e perene instabilidade econômica.



Uma escolha política


No fim, o que se aproxima para a população brasileira é decisão sobre qual o projeto político que se quer. O candidato bolsonarista não representa os interesses da população brasileira. Ele representa os interesses das elites que não pagam impostos, notadamente do capital financeiro especulativo (os R$ 612 bilhões em gastos tributários e os mais de R$ 1,15 trilhões em juros nominais ficam intocados, há uma forte agenda de desestatização e o ajuste recai sobre os benefícios) e das potências internacionais , que desejam pôr suas garras nas riquezas nacionais. Por todos os problemas que o atual governo possa ter, o que não se pode negar é que trabalhou para estabilizar a sociedade brasileira. Recompôs crescimento da renda, devolvendo ganho real ao salário mínimo, reduziu o desemprego e a informalidade a níveis que não se viam há anos e reconstruiu as políticas que sustentam quem mais precisa. Não se trata de uma obra acabada, e a perda de poder de compra em alimentos segue sendo um problema. Mas o rumo é outro.       


 No final, ajustes sempre serão necessários para o desenvolvimento da economia. A escolha de quem nos representa politicamente significa escolher, também, quem deverá arcar com os custos dos ajustes. A pergunta que se impõe ao eleitor, portanto, não é quem promete cortar mais, e sim sobre os ombros de quem esse corte vai cair.


Soma-se a isso, as instabilidades que certamente virão no futuro. Crises climáticas, impactos de novos conflitos armados e dos que já estão em curso, pressão de outras potências querendo nossos recursos para salvar a si próprios colocarão o Brasil e a América Latina em seu momento mais perigoso em muitas décadas. E o projeto político que você escolher, vai nos guiar por todas essas instabilidades. O atual governo, por mais que não tenha promovido mudanças estruturais, entregou estabilidade. O antecessor, em comparação, quando teve que enfrentar crises, entregou, ao final de seu governo, um país com má gestão de uma pandemia que deixou mais de 700 mil mortos, com 67,8 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza (Indicadores Sociais – SIS,  IBGE, 2026), mais de 21 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave – passando fome –, além de 70,3 milhões de pessoas com algum grau de insegurança alimentar.


O que você precisa escolher é qual projeto quer para nos guiar frente às crises muito prováveis que virão: quem estende a mão ao povo e se preocupa com ele, ou quem promete, antes mesmo de se eleger, deixar o povo desprotegido e sozinho para enfrentar as crises que, certamente, se aproximam.


Esperamos que a maioria escolha “O BEM PARA TODOS”.



Referências


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