O brasileiro trabalha pouco?
- Enrico Pallone

- 22 de fev.
- 5 min de leitura
Foi publicada há pouco uma matéria de um tradicional veículo de imprensa brasileiro, oferecendo uma “reflexão” sobre a média de horas trabalhadas pelos brasileiros. Com base em um levantamento realizado por Daniel Duque, que por sua vez utiliza uma base de dados organizada por Amory Gethin e Emmanuel Saez, o texto busca contestar a proposta em discussão sobre a redução da jornada 6x1. A argumentação sustenta que o trabalhador no Brasil já atua menos horas do que seria esperado, considerando a posição econômica do país — em termos de produtividade, renda per capita e nível salarial — e também abaixo da média mundial.
Para além de evidenciar um alinhamento político com os princípios da instituição que o publicou, essa linha de raciocínio esbarra em diversos obstáculos e inconsistências. Não por acaso, a reportagem gerou repercussão, com destaque para uma série de críticas recebidas, muitas delas procedentes. A proposta aqui é justamente debater a questão e tentar expor, sob nosso ponto de vista, os inúmeros equívocos presentes no texto.
Em síntese, o artigo sustenta-se no argumento central de que o trabalhador brasileiro dedica, em média, menos horas ao trabalho (40,1 horas semanais) do que a média global (42,7 horas). A principal sugestão do texto é a de que a percepção de que o brasileiro trabalha em excesso pode não encontrar respaldo na realidade, sobretudo quando se compara a nações de nível de desenvolvimento semelhante, nas quais a jornada tende a ser mais extensa como forma de compensar a baixa produtividade.
A partir daí, é possível introduzir duas críticas contundentes a esse raciocínio. Em primeiro lugar, utilizar a média aritmética para construir o indicador de “quantidade média de horas trabalhadas por semana” não é a metodologia mais adequada. Isso porque a estrutura do mercado de trabalho brasileiro (assim como a de qualquer país em desenvolvimento) é marcada por profunda heterogeneidade.
O grau de informalidade é altíssimo — acima de 38%, segundo a PNAD Contínua. As ocupações informais tendem a ser caracterizadas por jornadas mais longas. Essa configuração gera dois problemas: a distorção dos dados, que muitas vezes não capturam a realidade analisada, e a subnotificação. É muito difícil atestar com segurança a média de horas trabalhadas em ocupações informais justamente pela tendência de sub-registro nessa modalidade.
Além disso, há outro fator que compromete ainda mais a metodologia baseada em “média de horas trabalhadas”: a subocupação, também típica de economias periféricas. É comum que, em contextos de subdesenvolvimento, parte da população que não consegue se inserir em uma relação formal de trabalho busque formas de subsistência — os chamados “bicos”. Essas pessoas exercem atividades profissionais que não estavam em sua preferência original, como solução para sobreviver. Na maioria dos casos, tais ocupações oferecem salários muito mais baixos e, sobretudo, uma carga horária inferior à que o trabalhador gostaria de cumprir.
Para se ter ideia, segundo a metodologia da PNAD Contínua, para ser enquadrado nessa categoria é necessário que a pessoa trabalhe menos de 40 horas semanais e manifeste desejo e disponibilidade para trabalhar mais. Em 2025, 5,6% da população economicamente ativa — quase 6 milhões de pessoas — encontrava-se em condição de subocupação. Dispensa comentários o peso que esse contingente exerce sobre a média, puxando-a para baixo. Essa relação não é considerada no cálculo das horas médias trabalhadas por semana.
Em segundo lugar, há a noção de que seria “esperado” que uma economia menos produtiva compense essa defasagem com jornadas mais extensas. Trata-se de uma falácia, pois não há garantia alguma de que o aumento individual da carga horária resulte em ganhos de produtividade. Se a estrutura produtiva permanece a mesma — no caso brasileiro, majoritariamente baseada em produtos primários voltados à exportação — a tendência é que a produtividade se mantenha estável ou até mesmo decline. A produtividade econômica (como a chamarei aqui para diferenciar do conceito estrito) expressa a relação entre horas trabalhadas e riqueza gerada. Se a jornada aumenta, mas a produção se mantém ou cresce em ritmo inferior ao das horas despendidas, a produtividade cai.
Além disso, em mercados de trabalho marcados por baixos salários e longas jornadas, as empresas têm menos incentivos para investir em máquinas e tecnologia. Essa configuração estimula um cenário prejudicial tanto para os trabalhadores quanto para o desenvolvimento da economia: torna-se mais lucrativo explorar o tempo do trabalhador do que investir em inovação e tecnologia — justamente o que seria fundamental para elevar a produtividade. A redução da jornada poderia, inclusive, atuar como indutora de investimentos em novas técnicas, já que, para compensar a menor carga horária, as firmas precisariam adotar métodos mais sofisticados e equipamentos mais avançados.
Esse raciocínio, além de esbarrar nos dois obstáculos teóricos mencionados, ignora outros aspectos fundamentais para a reflexão a que o artigo se propõe. Um deles diz respeito à penosidade do trabalho e à infraestrutura urbana — variáveis que o levantamento do FGV Ibre desconsidera ao isolar o tempo de trabalho do contexto social. No Brasil, quarenta horas semanais de trabalho em metrópoles como São Paulo ou Rio de Janeiro impõem um desgaste biológico e social muito superior às mesmas quarenta horas em Berlim ou Buenos Aires, uma vez que a precariedade do transporte público e do urbanismo consome uma energia vital exorbitante.
Ao não levar em conta o "salário indireto" (ou sua ausência), o estudo falha metodologicamente ao deixar de contabilizar a jornada total, que inclui o tempo exaustivo de deslocamento e a carga do trabalho reprodutivo doméstico. Essa "jornada invisível" é uma extensão do tempo dedicado à reprodução do capital, o que torna a comparação global puramente numérica uma distorção que oculta a real sobrecarga física e mental imposta ao trabalhador brasileiro.
Por fim — e longe de ser menos relevante — há um problema de ordem ideológica que envolve o conceito de “esforço esperado”. O artigo, bem como o estudo em que se baseia, ao estabelecer um padrão de horas que um país “deveria” trabalhar com base em sua renda e demografia, pressupõe que nações pobres devem obrigatoriamente compensar sua baixa produtividade com jornadas mais longas. Ao sugerir que o brasileiro trabalha “menos do que o esperado”, o estudo desconsidera que a riqueza dos países que alcançaram saltos de desenvolvimento não resultou de longas jornadas, mas sim de políticas industriais agressivas, forte investimento estatal em ciência e tecnologia e educação técnica de qualidade. Somente “esforço” não garante crescimento econômico nem, sobretudo, desenvolvimento. Trata-se de uma falsa correlação, especialmente à luz das experiências das nações mais ricas.
Ademais, atrelar a necessidade de trabalhar mais como condição incontornável para o desenvolvimento exime a responsabilidade que a classe empresarial supostamente teria de liderar o processo de crescimento, com investimentos em inovação e tecnologia. Culpa-se o trabalhador por trabalhar pouco, mas não a empresa por investir menos do que deveria.
O artigo tenta, portanto, sugerir — por meio de um estudo empírico repleto de problemas metodológicos — que a redução da jornada de trabalho no Brasil seria uma má ideia. No entanto, travestido de um suposto rigor técnico, o texto entrega uma produção ideológica e enviesada.
Ao sugerir a manutenção das atuais cargas horárias, a reportagem ignora que a "baixa jornada" brasileira é, na verdade, sintoma da precariedade do mercado de trabalho, e não um privilégio do trabalhador. Ao diluir o esforço de quem está na escala 6x1 com a realidade de milhões de subocupados, o levantamento mascara a sobrecarga física e o déficit de produtividade tecnológica. A análise falha ao tentar transformar um problema estrutural de investimento em uma cobrança por mais horas de trabalho, perpetuando um ciclo de baixa eficiência.
Dessa forma, fica evidente, a nosso ver, que o artigo possui um caráter muito mais ideológico do que estritamente técnico. Ao tratar o tempo — de vida! — do trabalhador como uma variável de ajuste para compensar deficiências de gestão e infraestrutura, a matéria deixa de ser um estudo econômico para se tornar uma defesa de interesses setoriais a qualquer custo. A metodologia foi moldada para oferecer um resultado previamente desejado. O foco na "falta de esforço" oculta a necessidade urgente de políticas que priorizem a inovação e o bem-estar social como verdadeiros motores do desenvolvimento nacional.



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