Você nunca será bilionário!
- Enrico Pallone

- há 4 dias
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É muito comum encontrarmos ditos “especialistas” em economia e finanças tentarem descrever e ensinar a fórmula mágica da prosperidade. Sempre com um argumento fácil e palatável, que tenta vender que o sucesso financeiro é uma receita de bolo que pode ser seguida. E, é claro, eles conhecem o passo a passo infalível e têm a chave para poder te ensinar (mesmo que nenhum deles tenha enriquecido dessa maneira). Investimentos em ações voláteis, criptoativos, encontrar novas fontes de renda – para além da sua atual atividade profissional que te toma 8 horas ou mais por dia – e até estratégias de austeridade que beiram a se colocar na miséria são algumas das indicações que prometem o equilíbrio financeiro. Mas, é claro, que pouquíssimas pessoas conseguem chegar à prometida condição de prosperidade.
E isso nada tem relação com as capacidades individuais de um ou outro indivíduo, mas sim com as condições de trabalho e rendimento oferecidas no mercado de trabalho. A receita da prosperidade transmitida pelos “especialistas” passa a impressão de que é tudo questão de esforço. Afinal, “não tem pobreza que resista a 14 horas de trabalho”, não é mesmo? Quem propaga tal fala absurda (e que tem esta função mesmo – a de ser absurda) não menciona – por ignorância ou desonestidade – que a média salarial per capita no Brasil era de pouco mais de R$ 2.000,00 em 2024, últimos dados consolidados publicados recentemente pelo IBGE. Considerando que o valor da Cesta Básica, em dezembro de 2024, era de R$ 702,03, em média, era preciso trabalhar 77 horas e 22 minutos – em um universo de 220 horas mensais máximas permitidas – para que um trabalhador conseguisse adquirir uma cesta básica em dezembro de 2024. Isso considerando o rendimento médio per capita. Ou seja, um terço do mês trabalhado se destinava à compra de uma fracção de itens mínimos para sobrevivência, sem contar moradia, saneamento básico, acesso à energia, internet, locomoção e outros itens básicos para a mínima subsistência.
Quando colocamos moradia em discussão, esse comparativo se torna ainda mais absurdo. Em dezembro de 2024, a média do aluguel cobrado por metro quadrado no Brasil era de R$ 48,12 – dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas. Considerando um imóvel de 34 metros quadrados, temos um valor médio de R$ 1.636,08. Não é preciso ir muito adiante para concluir que, tendo como base o rendimento médio per capita do trabalhador brasileiro, o simples ato de sobreviver é um desafio.
Mas então, como seria possível prosperar, como gostam de demonstrar os autoproclamados especialistas, em condições tão adversas? Horas, simplesmente, porque não é possível. As chances de eu, você ou qualquer outra pessoa enriquecer e prosperar (nos moldes por eles propostos) são análogas a zero. E o motivo é muito claro: o trabalho produz riqueza, mas é impedido de acessar os benefícios gerados a partir dessa produção. Quando estamos trabalhando, seja em uma linha de produção de uma fábrica, em um computador elaborando linhas de código, atuando como motoristas de aplicativo e até mesmo nos serviços que são prestados, recebemos uma remuneração ao final do processo produtivo que não condiz, nem de perto, ao real valor que criamos. Os salários são uma fração muito pequena da riqueza criada que serve, apenas, para permitir que nós mesmos tenhamos condição de tentar sobreviver e, ao final, retornar nossos rendimentos aos patrões em forma de consumo dos mesmos produtos e serviços que oferecemos.
É muito difícil entender isso, mas é virtualmente impossível tornar-se bilionário apenas recebendo salário, por mais elevado que seja. A riqueza não deriva da renda do trabalho, mas da renda da propriedade: lucros empresariais, dividendos, juros, aluguéis e valorização de ativos financeiros. Mesmo altos executivos enriquecem de forma significativa não pelo salário mensal, mas pela participação acionária e pelo controle de ativos. O trabalho remunera a sobrevivência – e, como vimos, nem isso no caso brasileiro; a propriedade remunera o poder econômico.
Essa ideia de que qualquer indivíduo pode enriquecer – ou mesmo se tornar bilionário – apenas com esforço, talento e perseverança é falsa. Nem precisamos fazer um exercício com dados muito elaborados para demonstrar fortes indícios disso. Em um país em que a renda média por pessoa ultrapassa por pouco os R$ 2.000,00, é, no mínimo, ignorância dizer que basta esforço, atitude e empreendimento para prosperar. Afinal, como uma pessoa consegue empreender, se nem ao menos tem dinheiro para pagar por um teto e comida?
Indo além do mundo dos sonhos dos liberalóides do jardim de infância – que até podem entender uma coisa ou outra de finanças, mas de economia nada compreendem, ou pelo menos não demonstram – e levando em consideração que não vivêssemos em um país em que com o que se ganha mal se consegue comer, mesmo assim, é impossível enriquecer e “prosperar” tendo nascido integrante da classe trabalhadora. E isso por um sem número de motivos.
Para começo de conversa, ninguém se torna bilionário em uma ilha deserta. A acumulação de riqueza extrema de uma vasta infraestrutura pública e social, financiada por toda a sociedade! Estradas, portos, sistemas de transporte, energia, internet (em grande parte fruto de pesquisa estatal), um sistema jurídico que garante contratos e propriedade privada, forças de segurança e, sobretudo, uma população minimamente educada e socialmente estável. Os grandes homens de negócios se apropriam de toda essa infraestrutura e valor produzidos socialmente sem devolver à sociedade uma contrapartida proporcional. A riqueza privada, nesse sentido, é construída sobre uma base pública.
Como se não bastasse, além de se utilizarem de toda a infraestrutura construída socialmente, ainda há o trabalho. A produção de riqueza não surge de uma “boa ideia”. Ideias, na verdade, não servem de nada se não há alguém para materializá-las. Dessa forma, o trabalho é a condição fundamental para que produtos e serviços sejam disponibilizados. Por consequência, o que viabiliza todo processo de produção e enriquecimento é excedente extraído do trabalho de milhares – ou milhões – de pessoas. Engenheiros, operários, motoristas, atendentes, técnicos e trabalhadores de serviços materializam e multiplicam qualquer ideia inicial. No entanto, a remuneração desse trabalho representa apenas uma fração do valor que ele gera. A diferença se concentra no topo da hierarquia econômica, alimentando fortunas individuais colossais.
Mas então, se com o trabalho não é possível enriquecer a ponto de se tornar um integrante da classe que comanda as empresas e meios de produção, como então os ricaços lá chegaram? Horas, eles nasceram nas famílias certas.
Em sociedades altamente desiguais, a herança é o maior preditor de sucesso financeiro. Não se trata apenas de dinheiro, mas de acesso à educação de qualidade, redes de contato, capital cultural e, sobretudo, segurança para errar. Quem nasce em família rica pode empreender, investir e esperar retornos de longo prazo. Quem nasce pobre não dispõe desse “colchão de segurança”. Um erro pode significar fome, endividamento ou exclusão permanente do mercado.
Não é, portanto, somente a herança no sentido monetário. Claro que os grandes empresários em sua brutal maioria são de famílias já bilionárias. Mas há, também, a possibilidade de empreender. Eles têm tempo, segurança, dinheiro e apoio para investir em seus negócios. Jeff Bezos, por exemplo, recebeu um singelo aporte de seu pai, já multibilionário, de quase 300 mil dólares, só para dar início à Amazon. Jorge Paulo Lemman, Marcel Hermann Telles e Carlos Alberto Sicupira, famosos bilionários brasileiros e fundadores da 3G Capital – gestora global de private equity –, que tem em seu portfólio empresas como AB InBev, Kraft Heinz, Burger King, além de ter envolvimento com as Lojas Americanas, inclusive durante a fraude escandalosa que afundou a empresa em um processo de recuperação judicial, todos, sem exceção, vieram de famílias abastadas e que permitiram acesso ao melhor ensino, ferramentas e contatos para crescessem seus patrimônios.
A prometida ascensão social, portanto, é uma mera ilusão. Quantas são as pessoas de círculos sociais próximos que se observa terem ascendido socialmente e chegado a um patamar de prosperidade? Se a possibilidade realmente estivesse tão aparente, não deveria ser mais comum identificar tais indivíduos? Quando identificamos alguém que o fez, é um típico caso de exceção que prova a regra. Afinal, se realmente vivêssemos em uma sociedade meritocrática, muitos mais deveriam ser os exemplos.
O relatório da Oxfam – uma confederação global de organizações não governamentais dedicada a combater a pobreza, a desigualdade e a injustiça social em mais de 70 países – demonstra dados nada surpreendentes e que corroboram essa tese. Para início de conversa, pelo menos 60% de toda a riqueza dos atuais bilionários foi herdada, ou adquirida através de favorecimentos, nem sempre éticos e legais, relacionados ao seu próprio poder de influência. Estamos falando aqui de lobby, corrupção e monopólio. E no caso dos novos bilionários, essa tendência tem se aprofundado.
Por exemplo, a Forbes, ainda no ano de 2025, fez uma curiosa e nada surpreendente análise sobre o caso dos novos “super-ricos” brasileiros. Segundo esse levantamento, dos dez indivíduos bilionários brasileiros mais jovens, 9 deles herdaram suas fortunas. Essa é uma tendência muito clara, em especial de alguns anos para cá. Ano após ano, tanto o número de novos "super-ricos" cresce, quanto os que assim se tornam por herança, ou através de meios diretamente ligados à influência de suas famílias.
Em qualquer lugar do mundo, mas em especial em países subdesenvolvidos, essas vantagens são amplificadas por desigualdades de raça, gênero e classe. As oportunidades disponíveis para um homem branco de classe alta são radicalmente diferentes das acessíveis a uma mulher negra da periferia. Isso ocorre porque o ponto de partida social influencia diretamente o acesso à educação de qualidade, redes de contato, capital inicial e segurança financeira – elementos fundamentais para empreender, arriscar, ou até mesmo se preparar para o mercado de trabalho. Em economias periféricas, marcadas por mercados de crédito restritivos, alta informalidade e frágil proteção social, o risco inerente ao empreendedorismo pesa muito mais sobre aqueles que não dispõem de patrimônio familiar ou de uma rede de apoio capaz de absorver fracassos iniciais.
Além das barreiras econômicas objetivas, há também obstáculos estruturais ligados a discriminações históricas e institucionais. Evidências – como, por exemplo, as demonstradas pelo estudo feito pelo SERASA EXPERIAN, o Panorama PME DE 2025 – demonstram que mulheres enfrentam maior dificuldade para obter crédito, mesmo que negócios liderados por elas, em média, ofereçam 20% menos de chance de inadimplência. Estereótipos raciais e de gênero afetam percepções de competência, confiabilidade e liderança, influenciando decisões de bancos, fornecedores e clientes. Em contextos periféricos, onde o Estado muitas vezes não consegue garantir plenamente direitos, contratos e políticas de apoio produtivo, essas desigualdades sociais pré-existentes acabam sendo reproduzidas e até aprofundadas pelo próprio funcionamento dos mercados.
A dimensão de classe, por sua vez, interage com raça e gênero para definir quem pode assumir riscos e quem precisa priorizar a sobrevivência imediata. Para começo de conversa, o acesso à educação já é uma questão que demonstra clara disparidade. Segundo dados do IBGE (PNAD Contínua), 73,6% das pessoas analfabetas do país se declaram como pretas ou pardas. Das pessoas entre 14 e 29 anos que não completaram o ensino médio e atualmente não estão estudando, 72,5% – quase seis milhões e trezentas mil pessoas – se declararam pretas ou pardas na pesquisa. Levando em consideração pessoas com 15 anos ou mais, em média, brancos conseguem estudar 1,5 anos a mais do que pretos ou pardos. Essa é uma clara demonstração da disparidade de acesso à educação.
A dificuldade de conseguir empreender é outra questão a ser pontuada. Empreendimento geralmente exige períodos de baixa ou nenhuma renda, capacidade de investir antes de obter retorno e resiliência diante de falhas – condições mais viáveis para quem já possui estabilidade material. Para indivíduos das camadas populares, especialmente mulheres negras que acumulam responsabilidades de cuidado não remunerado, o tempo, a mobilidade e os recursos necessários para transformar uma ideia em negócio competitivo são drasticamente limitados. Assim, o empreendedorismo em sociedades capitalistas periféricas não é apenas uma questão de iniciativa individual, mas de posição estrutural em hierarquias sociais que moldam, de antemão, quem tem reais chances de prosperar.
Nesse contexto, a meritocracia é uma brutal falácia: os indivíduos não começam a corrida do mesmo ponto de partida. Nós não temos chances reais de prosperar nas condições que nos são impostas. O discurso do mérito serve mais para legitimar privilégios do que para explicar resultados. Então, você gostaria de prosperar e se tornar um multimilionário, cheio de dinheiro e sucesso? Bom, o segredo é ter sorte. Sorte de ter nascido na família certa.
E se você não tiver nascido? Aí, para além de ter que lutar pela sua sobrevivência pelo resto da vida, existem duas alternativas sob o meu ponto de vista. “Trabalhe, enquanto eles dormem” e destrua sua saúde, sanidade e paz para, muito provavelmente, não ver nem de perto os retornos de todo o seu esforço. Ou, senão, SE ORGANIZE!
Referências:
DIEESE – DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS. Custo da cesta básica de alimentos – dezembro de 2024. DIEESE – análise cesta básica. São Paulo: DIEESE, 2025. Disponível em: https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/analiseCestaBasica202412.html. Acesso em: 30 jan. 2026.
FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – FIPE. Índices FIPEZAP – Preço médio de aluguel por metro quadrado – Brasil. São Paulo: FIPE, [ano]. Disponível em: https://www.fipe.org.br/pt-br/indices/fipezap/. Acesso em: 30 jan 2026.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PNAD Contínua: Tabela 7125: Taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais de idade, por cor ou raça e grupo de idade. SIDRA – Banco de Tabelas Estatísticas. Rio de Janeiro: IBGE, ano. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/7125. Acesso em: 30 jan. 2026.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PNAD Contínua: Tabela 7127: Número médio de anos de estudo das pessoas de 15 anos ou mais, por cor ou raça e grupo de idade. SIDRA – Banco de Tabelas Estatísticas. Rio de Janeiro: IBGE, ano. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/7127. Acesso em: 30 jan. 2026.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PNAD Contínua: Tabela 7216: Pessoas de 14 a 29 anos que não frequentam escola e que frequentaram no máximo o ensino médio ou curso equivalente sem o completar, por cor ou raça e idade que deixou de frequentar escola pela última vez. SIDRA – Banco de Tabelas Estatísticas. Rio de Janeiro: IBGE, ano. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/7216. Acesso em: 30 jan. 2026.
OXFAM BRASIL. Às custas de quem? A origem da riqueza e a construção da injustiça no colonialismo. São Paulo: Oxfam Brasil, 2025. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/as-custas-de-quem/. Acesso em: 30 jan. 2026.
SERASA EXPERIAN. Panorama PME: 5ª edição — Empreender no Brasil. 2025. Disponível em: https://www.serasaexperian.com.br/conteudos/empreender-brasil/. Acesso em: 30 jan. 2026



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